Em 2025, o Brasil registrou alarmantes 60 mil casos de violência psicológica contra mulheres, representando um aumento de 16,9% em comparação ao ano anterior. Os dados, extraídos do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, revelam uma taxa de 55,6 registros para cada 100 mil mulheres, destacando uma forma de violência que frequentemente se insinua de maneira sutil, através de comportamentos como controle, humilhação, chantagem e desvalorização, podendo escalar ao longo do tempo.
A psicóloga Patrícia Damasceno, da Hapvida, enfatiza que a violência em relacionamentos não se limita a marcas visíveis. “De acordo com a legislação brasileira, como a Lei Maria da Penha, e a prática clínica, essa violência pode se manifestar de diversas formas: psicológica, moral, patrimonial e sexual, ocorrendo tanto em casamentos quanto em relacionamentos estáveis”, explica.
Patrícia destaca que a violência psicológica se caracteriza por ações que causam danos emocionais, que minam a autoestima e buscam controlar as decisões da mulher. Comportamentos como o gaslighting, onde a vítima passa a duvidar de sua própria memória e percepção, e a humilhação constante, são exemplos de como essa violência pode se apresentar. O controle excessivo sobre aspectos pessoais, como roupas e amizades, além de ameaças e chantagens emocionais, são indicadores claros dessa dinâmica abusiva.
“Por sua natureza sutil e progressiva, a violência psicológica muitas vezes não é facilmente reconhecida”, observa a psicóloga, que menciona frases manipulativas como “você está louca” e “eu nunca disse isso” como parte de uma estratégia para confundir a vítima. Muitas vezes, o controle se disfarça sob a máscara de “cuidado” ou “amor”, quando na verdade serve para restringir a autonomia da mulher.
Patrícia explica que é comum que as mulheres não identifiquem certas atitudes como violência, devido à dependência emocional e à forma gradual como o abuso se instala nas relações. A ideia de que o ciúme é um sinal de amor e a normalização de comportamentos invasivos contribuem para essa percepção distorcida.
A permanência em relações abusivas é frequentemente alimentada por uma dinâmica de alternância entre momentos de afeto e episódios de violência, o que reforça a dependência emocional e a esperança de que a relação possa voltar a ser como antes. A repetição de frases depreciativas e a dependência financeira também são barreiras que dificultam a ruptura.
Quebrando o Ciclo
Romper com um relacionamento abusivo não significa que as cicatrizes emocionais desapareçam instantaneamente. A psicóloga alerta que muitas mulheres podem desenvolver sintomas relacionados ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), incluindo ansiedade, insônia e sentimentos de culpa. O processo de reconstrução da autoestima e da autonomia requer tempo e apoio psicológico, que pode ajudar a mulher a entender e superar os traumas vividos.
Recuperar a autonomia pode começar com pequenas decisões do dia a dia, como escolher o que vestir ou retomar um hobby. A busca por independência financeira, por meio da capacitação profissional e da reinserção no mercado de trabalho, é crucial para que a mulher redescubra sua capacidade e liberdade.
Para aqueles que convivem com mulheres em situação de violência, é essencial adotar uma postura de apoio, evitando julgamentos ou questionamentos que possam agravar a situação. Frases como “por que você não saiu antes?” podem ser prejudiciais e, em vez disso, é importante oferecer um espaço seguro para que a mulher possa se expressar.
Reconhecer que algo não está certo já é um passo significativo para aquelas que se encontram em um relacionamento abusivo, mesmo que não se sintam prontas para deixar a relação. Sentir medo ou insegurança não é sinônimo de fraqueza, e a mulher deve saber que a força para recomeçar ainda está presente, embora ofuscada por um contexto abusivo.
Patrícia enfatiza a importância de não enfrentar essa luta sozinha. Conversar com alguém de confiança e buscar ajuda profissional são passos fundamentais para fortalecer a mulher e ajudá-la a traçar um caminho mais seguro. Para aquelas que precisam de orientação, é possível contar com o Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, um serviço gratuito disponível 24 horas por dia.

